quarta-feira, 5 de agosto de 2015

O que as babás Ângela e Tayane têm a ensinar sobre brancos redentores e paladinos dos oprimidos

Ontem ao me deparar com uma polêmica envolvendo as atrizes Fernanda Lima e Tatiana Godoi, achei que seria interessante pontuar algumas coisas da militância nossa de cada dia.

A polêmica se deu devido a uma postagem da atriz branca em seu instagram pondo fotos das babás dos seus filhos gêmeos como uma maneira de enaltecer o estilo das meninas, que são negras e filhas adotivas de uma amiga, alegando que na casa dela babás são livres para serem "estilosas" e não são obrigadas a usar a farda branca de babá. Imediatamente seguidores e a atriz negra Tatiana Godoi (que já se envolveu em outra polêmica com o autor de novela Walcyr Carrasco), retrucou: "O mais triste desse país não é o fato de estarem vestidas de branco ou não, é o fato de sempre vermos pelo passado escravocrata esse tipo de foto, a sinhá branca falando: 'olha, minhas negras não vivem na senzala, são da casa!'. Pode até tratar bem, mas infelizmente elas sempre serão as babás e a sinhá sempre será a boazinha tipo Princesa Isabel. Um dia, neste país, ainda vamos ver os negros no poder e não só subalternos como essa foto #prontofalei." Após as críticas, Fernanda Lima alegou que as meninas fazem as refeições junto à família e que as contratou pois "o trabalho de babá é digno e, embora difícil, pode ser rentável". A repercussão de tal polêmica rendeu todo tipo de texto de crítica na internet e achei que, na condição de preto, não podia deixar de me posicionar. 

Fernanda Lima em papel de destaque, "só porque ela é branquinha"
É importante lembrar que não é a primeira vez que Fernanda Lima dá esse tipo de mancada, só por ela ser "branquinha". Falando sobre a foto em si, não interpretei como racista nem mal intencionada. É importante problematizar, no entanto, esse tipo de postagem, as críticas que temos feito a elas e a repercussão dessas críticas. Se por um lado, tenho tido agonia da perspectiva radical dos movimentos das diversas categorias, com exaltações, ao meu ver, equívocas de pontos como "roubo de protagonismo", "legitimidade de fala", por outro, as respostas da atriz branca às críticas geralmente são péssimas.

Tenho percebido o webativismo como bem problemático no sentido de apontar indivíduos como culpados das opressões e não um sistema. Acho complicado dizer que Fernanda Lima e o marido foram racistas. Vejam bem, não quero isentá-los de "culpa" nem relativizar comportamentos que, embora muitas vezes não intencionais, são graves. As pessoas reproduzem várias opressões e é papel nosso, enquanto (web)militantes apontar quando elas as estiverem reproduzindo. Apontar o dedo na cara da atriz e chamá-la de racista é no mínimo problemático por algumas razões. Gostaria de citar um caso parecido com a cantora Mallu Magalhães, quando seu relacionamento foi apontado como abusivo por algumas webfeministas baseando-se apenas uma foto em que a cantora aparece com o seu namorado, que é mais velho, o também cantor Marcelo Camelo. A feminista Marjorie Rodrigues em seu blog atentou para o "detalhe" de que em nenhum momento consultaram Mallu pra falar sobre o relacionamento que é DELA e que, mais grave ainda, propositalmente omitiram que na foto a cantora aparecia espontaneamente sorrindo (pois é, sor-rin-do).

Ângela (à esquerda) e Tayane (à direita)
Cito essa história porque da mesma maneira, as críticas a Fernanda Lima foram feitas sem consultar as babás Ângela e Tayane. Qual a gravidade disso? Ora, estamos partindo do pressuposto de que elas são alienadas ou que não têm nenhuma consciência de sua negritude? Elas são frágeis meninas negras esperando para serem salvas pela militância negra que eliminará toda a alienação? O problema, ao meu ver, é que por vezes nos colocamos como os paladinos capazes de "desoprimir os oprimidos". Essa perspectiva nunca foi muito a minha praia. Não falo para silenciarmos diante de tantas opressões, mas para gritar por igualdade é necessário refletir sobre as táticas necessárias, pois a política é um jogo e a superação do racismo é a estratégia a ser alcançada. Se pensamos o racismo como sistema estruturante pelo qual devemos lutar contra, é importante ter em mente que essa é uma tarefa de todxs nós! Pretos, pardos, amarelos e até dos brancos. Para isso, precisamos do protagonismo dos oprimidos e do apoio dos privilegiados.

Estarmos cientes da nossa condição de pretxs e tentarmos cada vez mais empoderarmos nossxs irmãos, irmãs, irmxs... é uma tarefa cotidiana que exige, sobretudo, mapearmos quem são os nossos aliados e inimigos nessa luta. A partir do momento que isso não está bem definido, podemos meter os pés pelas mãos, nos fechando em nós mesmos e perdendo a capacidade de diálogo com setores que são essenciais, como por exemplo pessoas brancas que podem se colocar como nossas apoiadoras. Em nenhum momento estou dizendo que é o caso da atriz, mas não ouso afirmar que não seja. Simplesmente não sabemos porque preferimos ataques a problematizações; preferimos  nos cegar em nossas próprias conclusões cheias de certezas a estabelecermos um diálogo. Precisamos deixar evidente que o apoio das pessoas privilegiadas requer que elas tenham a capacidade de baixar a bola a partir do momento que se reconhecem como tal. 

 Em minha humilde leitura dos fatos, a grande questão é que a foto deve ser problematizada pois reitera a lógica de princesa Isabel como "a boazinha porque assinou a lei áurea".
A própria mãe adotiva (achei conveniente expor essa informação) das meninas (e de mais 53 filhos) ironizou a polêmica chamando Fernanda Lima de "Bendita Sinhá", pois deu uma oportunidade digna de emprego para as jovens negras. Até aí, nada de novo no front. Nada mais silenciador de protagonismo que a lógica burguesa da caridade, afinal, melhor que as pobres meninas negras estejam num trabalho difícil, mas digno, do que estarem desempregadas e, vejam que fantástico, elas ATÉ têm suas individualidades respeitadas e são tratadas como seres humanos, pois sentam-se à mesa com a família branca e não precisam usar fardas. Sobre esse ponto, acho que a blogger Gabriela Moura no blog Não me Kahlo me contemplou ao escrever que A alienação de Fernanda é consequência da nossa história fraudada. Historicamente isso não é nenhuma novidade, foi assim desde o tempo dos escravos e da "abolição", como coloca a blogueira: 

Enquanto isso (repressão a manifestações de negritude) , crianças e adolescentes recém-libertas formavam parte do contingente de trabalhadoras domésticas. Alguns patrões entravam com pedido de tutela de menores – órfãos pobres -, tendo-os dentro de suas residências da maneira legal e institucionalizada, e fazendo-os trabalharem de maneira compulsória. O trabalho infantil feminino não remunerado foi facilitado por uma portaria imperial de 1835, e difundiu-se rapidamente por cidades como o Rio de Janeiro, onde era alimentada a tradição de que menores de 12 anos não poderiam solicitar um salário caso o patrão já arcasse com sua alimentação e vestimenta.

Estas criadas envelheciam sem nunca terem tido condição para manter uma poupança ou outra forma de economia financeira que lhes assegurasse uma velhice com condições mínimas de sustento, terminando em asilos ou abandonadas na rua. Esta situação as mantinha em miséria, permitindo a manutenção da pobreza daquela população.

E sobre a ideia de babá como membros da família em um trabalho "como outro qualquer":

(...) é falsa, ao passo que as relações familiares não abraçam realmente a empregada. O documentário “Doméstica”, de Gabriel Mascaro, deixou este relacionamento explícito. Ao mesmo tempo em que os patrões eram veementes na afirmação de que suas “ajudantes do lar” eram da família, a estas mulheres eram destinados os famigerados quartinhos dos fundos e a vida na periferia, bem longe das grandes casas. O programa Profissão Repórter, da Rede Globo, também abordou o tema recentemente, embarcando nas pautas sobre a PEC das Domésticas, que deixou o assunto em evidência. Na transmissão, uma mulher que trabalha como doméstica ganhando meio salário mínimo ouviu da entrevistadora a pergunta: Você gostaria de ganhar mais? O que faria com o dinheiro? A resposta: sim, para comprar as minhas coisas, comprar comida.

Então, estes estudos e abordagens deixam clara a necessidade de sairmos do lugar-comum quando usamos uma história única como exemplo para toda a condição trabalhista de um grupo.

Convenhamos, caros leitores, que a questão racial é algo que vai além da assinatura de uma lei por uma "branca redentora". Foi-nos propositalmente omitido que, mais importante que um papel assinado, foi o monte de gente preta (e vermelha) na resistência, lutando contra a opressão legitimada por um sistema, embora nos façam acreditar que o protagonismo não foi nosso. É importante frisar também que a Lei Áurea em nada beneficiou os negros, que foi meramente uma jogada política devido à crescente industrialização. Não precisa ser nenhum expert em história para lembrar que o sistema de escravidão não fazia mais sentido porque era necessário que os explorados fossem assalariados pra comprar os produtos industrializados, mas que a a ausência de vida digna dessas pessoas, antes escravas, agora operárias, continuou. Portanto, não há nada de heróico na assinatura da Lei Áurea e que colocar princesa Isabel como heróína é negar a resistência dos Quilombos, dos negros e indígenas que se colocaram na luta; ou seja: é um roubo (um assalto mesmo) do nosso protagonismo.

Sabendo de tudo isso, postar foto das babás, por mais bem intencionado que seja, é um reflexo dessa lógica de bondade da sinhá. Acho que o ponto central é problematizar por que as pessoas negras estão sempre em papéis subalternos e por que raios as pessoas brancas acham que merecem um biscoito por estarem sendo apenas humanas e tratando meus irmãos e irmãs com dignidade. Qual a necessidade de se vangloriar por que as babás não usam branco? É reforçar o estereótipo de branco redentor*? 

Faço o apelo para que nós, negros e apoiadores, consigamos entender a importância de saber como lançarmos as críticas para garantirmos menos desgaste, mais ganhos políticos e mais legitimidade. Meter os pés pelas mãos num momento de extrema ofensiva conservadora, considerando que estamos em extrema desvantagem na correlação de forças, pode ser desastroso na nossa luta.

#pretoegordo

*Vale a pena assistir para compreender o papel da Rede Globo (da qual Fernanda Lima faz parte, vale destacar) na construção da imagem do branco redentor: A negação do Brasil - O negro na telenovela brasileira (Joel Zito Araújo, 2000)





Um comentário:

Ana Souza disse...

Eu sei que é muito difícil que nós, negrxs tenhamos paciência com a galera branca, pq a gnt passa por cada uma que Deus me livre, e a vontade na hora é apontar o dedo na cara e escrachar o racismo que para gnt é óbvio, mas quem não sente na pele demora a fazer a associação. No entanto o Movimento Negro não pode se dar o desfrute. Não pode agir com emoção, raiva, gritaria. Pois temos uma ruma de corações e mentes pra conquistar e isso a gente tem que fazer pelo amor. (obviamente eu estou falando de indivíduos, aquela tiazinha que ainda fala cabelo ruim, ou algúem que viu com bons olhos a foto de Fernanda Lima, contra o racismo institucional a tática é tiro, porrada e bomba mesmo)
Enfim, muito contemplada com seu texto, migo.